sexta-feira, 22 de março de 2013

Lorotas de Pedro Marques (Por Brás da Viola)


Entrega de dentaduras em feira livre
O nosso catedrático cientista Pedro Marques é um homem de atos diferenciados e exorbitantes, principalmente no exercício de sua profissão que é comparada com o mártir da inconfidência mineira, o memorável Tiradentes. Quando o Galeno ainda atuava como dentista autodidata e prático, foi capaz de atitudes que talvez chamássemos de loucura; mas na verdade o diferencia pela sua excentricidade, sendo o tal portador de uma personalidade pura, cristalina e sincera. Muitas vezes o que é uma loucura pra uns seja normal para outros. Temos grandes inventores através da história que foram considerados como loucos como Leonardo da Vinci, Einstein, Galileu Galilei, Santos Dumont e outros, não é verdade? Eis a questão! Ser ou não ser diferente! O homem mais sábio de uma cidade será lembrado da mesma forma que lembraram do mais tolo. Ser diferente faz a diferença. Então se divirtam com mais essa história do Pedro Marques. Cidade de Salinas, das Minas Gerais, ano de 1975. Em pleno exercício da profissão o autodidata começa a propagar seu trabalho dentário. Nesta cidade tem uma feira tradicional há décadas, por sinal inigualavelmente uma das mais organizadas e estruturadas. Em seu consultório, o autodidata atendia seus clientes. Sabemos que para confeccionar uma dentadura primeiramente se tira o “molde”, e assim ele fazia, anotando na moldura o nome com endereço e dados do cliente. Durante a semana ele confeccionava todos os aparelhos mastigantes, deixando-as prontas para a devida entrega. O catedrático ia até os endereços para entregar em domicilio, e não estava obtendo sucesso. O certo é que não encontrava tais clientes em suas casas; muitos estavam em sítios, fazendas ou comercializando seus trabalhos. Os fregueses demoravam buscar suas dentaduras, o que fazia Pedro ficar agoniado, pois, precisava do dinheiro para pagar despesas do cotidiano. Então o que fazia nosso cientista? Ia para a feira livre encontrar seus clientes. Desta forma acontecia naquela tão concorrida feira na praça central de Salinas. O cientista gritava no meio de outras vozes dos comerciantes: - Clientes amigos que estiveram no meu consultório à Rua Araçuaí n° 193, venham pegar suas encomendas, eis aqui neste recipiente mais de cinqüenta dentaduras. Venham reconhecer a sua justa. Aqui do meu lado estão vendendo quiabo, cheiro verde, melancia, laranjas, batata doce, mandioca, milho verde e jaca, além de muito fumo e demais utensílios! E eu aqui estou com as minhas formosas e risonhas dentaduras, portadoras de dentes límpidos e maravilhosos, cuidadosamente preparadas para as bocas murchas dos meus clientes, venham banguelas! De repente começava aproximar os banguelas clientes. Pedro Marques dizia colocando a dentadura na boca do sujeito: - Essa não é... Essa não deu... Essa ficou frouxa! Essa é pequena... Essa é grande! O cidadão colocava quase todas as dentaduras na boca até encontrar a sua, se é que a encontrava. O que mais surpreendia? Tinha cliente que depois procurava outro cliente para fazer a troca de dentaduras. Um dizia para outro: - Eu acho que você está com a minha, e eu estou com a sua! Essa dentadura está muito frouxa na minha boca! Com o outro dizendo: Essa está muito apertada pra mim! Confirmado tal erro de entrega era feita ali mesmo a troca, cada um retirando a dentadura da boca passando pra outro, em plena feira livre sem mesmo passar por uma assepsia. Era de boca a boca com saliva e tudo, escovada ou não, com ou sem hálito forte. Ao fim da feira o Galeno autodidata dizia: - Clientela feliz e dinheiro no meu bolso! Quem não cuida do cliente fica praticamente parado no tempo! Obrigado fregueses banguelas e futuros clientes de novas dentaduras, pois, os meus boticões vos esperam para fazer novas extrações de dentes periclitantes! Venham sofredores de dores e que não dormem com esses dentes vulcânicos que soltam lavras doentias em crateras mirabolantes e faraônicas! É melhor uma dentadura como um freio de burro do que gemer a noite inteira igual jegue sem dono! Só assim eu ganho o pão de cada dia. Calcula-se que só em Salinas o cientista extraiu cerca de 20 mil dentes em um curto período de tempo. Logo depois se mudou para a sua amada e idolatrada Jaíba. Quer encomendar sua dentadura? Tem que fazer inscrição...